terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Retrato De Um Retrato

Pensei em me atirar 
No Capibaribe
Pra virar Recife.

Talvez conseguisse assim
Te desinventar de vez.

Apesar de si,
Todo mundo ama
Todo amor é arte.

Chamo de poema...
Como você chama?
Divergir faz parte.

Todo mundo é som
Toda vida é dom

Quem olha de ouvidos
Fechados não sabe
O que busca.

Sou preto, sou branco
sou riso, sou pranto
sou música.

Toda cor é tom
Todo amor é bom

Quem ouve de olhos
Fechados não sabe
O que busca.

Sou doido varrido
Pirralho fedido
Sou puta.

Todo canto é chão
Todo luto é vão

Não lhe disseram,
(Todo mundo ama)
Disseram? 
(Todo amor é arte)

Todo mundo é som
Toda vida é dom
Toda cor é tom
Todo amor é bom.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Contra-Poema

Te amo, estás ciente?
Guardei o nosso amor
Outrora inexistente
Numa canção alegre

Pra te fazer presente.
E, seja como for,
Ingloriosamente
Meu coração adere

(Palhaço descontente)
A tudo que é cor
A tudo que não mente
A tudo que difere.


Guardei, estás ciente?
Numa canção de amor
Um tanto irreverente
O nosso amor alegre.

Palhaços Tristes

That love song so down
Me traduz.
Palhaços tristes dançam valsa
Ao som de blues.

Aquele velho disse
Pra seguir a luz
E o fim do túnel era
O fundo do poço.

Amor...

Tire o mundo
Das costas, amor,
E já vamos embora.


Vai ficar pra mais um drinque
Ou vai dizer que nosso caso
Foi amor de carnaval?

Leve todos
Os meus demônios
Com você

Como um brinde
Do Mc Donald's,
Afinal...

Amor
Está fora
De moda.


Meu amor,
Amor é coisa
Simplória.

Só existe
O agora,
Amor!

Tire o mundo
Das costas.

Propriedade

Aqui dentro a poesia
Se contorce como um anjo
Caído nas graças
De si mesmo.

Meu verso é meu!

Cão perdido lambe a pata,
Late pros estranhos...
E todos são estranhos.

Meu verso é meu...


Quantos não feri
De um só golpe
Na minha luta por paz?

É meu...

Me ame
Ou te mato
Com as flores
Que te trouxe.

Meu...

Poeta burro!
Teus versos nada podem
Contra a dor de teus irmãos
Injustiçados.


Teu ídolo é um gênio
Incapaz de amarrar
Os cadarços.

Teu grito é alto
Mas tua voz é rouca
E mal se ouve lá de baixo.

Negas abrigo
A teus desafetos
Na esperança tola
De matá-los de fome

Sem saber que tua cama
É para os desgraçados
Leito de morte.


É sendo
Que se aprende a ser;

Amando
Que se aprende a amar.

Meu verso...
Toma!
Pode ficar.

Razão Dos Mais Fortes

Corações partidos
Fazem guerra,
Corações vazios
Lutam elas.

Fiz aniversário
Na cadeia.
Mãe, o teu cuidado
É uma cela.

O canto dos malditos
Me interessa.
Há algo de faminto
Na favela;

No sonho que percorre
Minhas veias
E no sorriso triste
De Isabela.

Asseveração

Éramos jovens, astutos...
E de tanto procurar, achamos
A verdade absoluta.
A verdade é dissoluta.
A verdade é uma puta
Com as pernas sempre abertas.

"Certo, errado, errado, certo,
Errado, certo, certo, certo..."
Como, pois, decidiremos
Qual o tolo mais esperto?

Fica comigo, pequena...
Só mais um pouco!


Mais um pouco
E mais um pouco
E pouco a pouco
Vai ficando.

Não me deixe
Escolher sozinho
A cor do carpete,
O lado da cama,
Quantas gotas
De adoçante
No café.

Não sei da verdade.
Não quero saber.
Não me conte!


Narcisistas de uma figa!
Querem que eu seja bom.

Não! Prefiro ser estúpido.

Os bons marcham
Em linha reta.

São chamados heróis
Quando advogam
Causas próprias.

Cerram seus punhos
E dentes e mentes
E matam e morrem...

Por quê?


Só escrevo poemas...
Poemas, meu Deus!
Pra que servem?

Fica, pequena,
Mais um pouco.

E mais um pouco
E pouco a pouco

Vai ficando.

Tragédia De Um Sabe-Tudo

A vida
É um relógio parado.
Às vezes me desgasto
Tentando ver as horas

Mas não vejo nada.

Será que do outro lado
Algum desocupado
Ri da minha cara?

Quanta idiotice!
“A vida é um relógio...”
A porra de um relógio,
E nem sei o que marca.


Dizem que melhora
Com o passar do tempo,
Mas não é o tempo!
Sou eu quem passa.

Cidade Borrada

Ah cidade!
Tens de triste
O que tens de bela.

Vejo-te à noite
Borrada...

De tua beleza
Quem faz caso?


Quem, cidade?

Outro Samba

Meninos no sinal
Um calor infernal

E ainda querem
Construir
Torres no cais.

Quem não anda a pé
Não sabe aonde vai.

Tem ódio no cartaz
Tem sangue no jornal


Tudo fede
À injustiça
Social

E o palhaço
Do poeta
Vem falar

De amor...
Que amor
Que nada!

Quem liga?

Me diga:
Quem além
Dos meus avós?

Mas veja
Talvez seja
Hora de cantar
Outro samba

Porque se não
A vida passa
Sem a gente ver.

Deixa...

Quem não sabe amar
Não pode se alegrar

Não sabe nada!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Orfandade

Minha pátria mãe gentil
Trata os pobres com frieza.
Onde é que já se viu?
Acabou-se a gentileza?

Pois enquanto houver meninos
Mal paridos na sarjeta,
Coração, eu te proíbo

De deixar essa tristeza!

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Samba De Esquecer Maria

Como te esquecer, Maria
(Se te canto todo dia)?
Por amor ou nostalgia
Eu te faço poesia.

Tens o meu melhor, querida.
Se te fiz assim bonita
Foi por te querer na vida,
E estás sempre de partida.

domingo, 27 de setembro de 2015

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Gente

Fui branco, fui preto
Mestiço, mulato...
Fui contraparente
Do ex-candidato.

Fui gordo, fui magro
Medroso, valente...
Fui considerado
Condescendente.

Fui homem, mulher
Patrão, empregado...
Embora inocente
Fui exonerado.


Fui santo, diabo
Incrédulo, crente...
Entre tantas coisas
Me falta ser gente.

Dilema Paterno

Entra, pequena
Sai do sereno
Vamos, Helena
Já pra dentro!

Conto uma estória
Ganho um sorriso
Faço de conta
Que sou sabido.

Quando adormece
Penso na vida.

O que acontece
Se ela duvida?


Se ela descobre
Que sou menino
Desesperado
E indeciso?

Que tenho medo
De bala perdida...

Às vezes sofro
De nostalgia
E me arrependo
De ter crescido

Mas eu a amo
Apesar disso.


O que helena
Não sabe ainda
E se soubesse
Jamais diria

É que o segredo
Mora escondido
Por entre balas
E pirulitos.

Salvação

Não fosse a poesia
Rara de olhos brilhantes
Eu seria triste

Seria fraco...

Triste e fraco
Como um tolo sozinho.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Cultivar

Faço as malas
Sem pretensão de partir.
Me despeço
Para não ir embora.

Reconheço
Que há vida lá fora,
Mas fico.
Pois gosto daqui.

Fico
Por causa das flores
Florindo
Na minha janela

Devo
Regá-las
Por elas.

Fico
Por causa
De mim

Que as amo
E as rego
Saudoso

Como quem já partiu...
Como quem nunca veio.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Da Prosa À Prece

“Boa sorte”, ela disse.
Respondi: sorte não existe.
“Só o destino dirá...”
Meu destino quem faz sou eu.

Se por acaso eu pedisse
Deus lá do alto me ouvisse
E então a chuva caísse
Molhando minhas raízes...

Deus abençoe o Recife
(Deus abençoe)


Tomo uma dose de uísque
Penso no apocalipse
Olho minhas cicatrizes
Amo atores e atrizes.

Deus abençoe o Recife
Deus abençoe o Recife
Deus abençoe o Recife
Deus abençoe.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Balada De Uma Espera

Buquês, recados... não mandei.
Ela prefere girassóis, eu sei,
Passeios... sorrisos...

Eles chegaram e outra vez
Estão tentando me matar, eu sei,
De tédio. Difícil

É crer que as flores no quintal
Desabrocham afinal.
Quanto tempo vai levar, meu bem?

À margem da vida real
Nos sentamos e esperamos.
Esperamos... Esperamos...

sexta-feira, 6 de março de 2015

Pescaria

O vento vem
E traz a onda
Que traz uns peixes
Para a rede.

O pescador
A todos conta
Que foi amado
Dia desses.

“Minha sereia
Um dia volta...”
Diz o calhorda.
Como mente!

Não teve amor
Não tem sereia
É solitário
Como a gente.

Alvorada

Teu encanto, minha prece,
Tantos outros recitais.
Desconforto pra quem desistiu.

Eu não te diria, mas...

Nossa comunhão precede
Muitos outros carnavais.
Reconforto pra quem resistiu.

Tu não saberias, mas...

Desde quando te puseste
A oeste de mim
Nunca mais anoiteci.