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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Propriedade

Aqui dentro a poesia
Se contorce como um anjo
Caído nas graças
De si mesmo.

Meu verso é meu!

Cão perdido lambe a pata,
Late pros estranhos...
E todos são estranhos.

Meu verso é meu...


Quantos não feri
De um só golpe
Na minha luta por paz?

É meu...

Me ame
Ou te mato
Com as flores
Que te trouxe.

Meu...

Poeta burro!
Teus versos nada podem
Contra a dor de teus irmãos
Injustiçados.


Teu ídolo é um gênio
Incapaz de amarrar
Os cadarços.

Teu grito é alto
Mas tua voz é rouca
E mal se ouve lá de baixo.

Negas abrigo
A teus desafetos
Na esperança tola
De matá-los de fome

Sem saber que tua cama
É para os desgraçados
Leito de morte.


É sendo
Que se aprende a ser;

Amando
Que se aprende a amar.

Meu verso...
Toma!
Pode ficar.

Razão Dos Mais Fortes

Corações partidos
Fazem guerra,
Corações vazios
Lutam elas.

Fiz aniversário
Na cadeia.
Mãe, o teu cuidado
É uma cela.

O canto dos malditos
Me interessa.
Há algo de faminto
Na favela;

No sonho que percorre
Minhas veias
E no sorriso triste
De Isabela.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Orfandade

Minha pátria mãe gentil
Trata os pobres com frieza.
Onde é que já se viu?
Acabou-se a gentileza?

Pois enquanto houver meninos
Mal paridos na sarjeta,
Coração, eu te proíbo

De deixar essa tristeza!

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Gente

Fui branco, fui preto
Mestiço, mulato...
Fui contraparente
Do ex-candidato.

Fui gordo, fui magro
Medroso, valente...
Fui considerado
Condescendente.

Fui homem, mulher
Patrão, empregado...
Embora inocente
Fui exonerado.


Fui santo, diabo
Incrédulo, crente...
Entre tantas coisas
Me falta ser gente.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Noturno

Encerras no peito a memória
De todas as tuas paixões,
E no mesmo peito a revolta
Por ambas as solidões

A tua e a de quem te matou
Afogado num mar de esquecimento.
É com a cabeça que amas
E desamas teu próximo.

As aflições da mocidade
Te puseram cínico
Entre poetas e amantes de tudo.

Hoje não há quem te iluda,
Quem te desiluda...
Não há ninguém.

Mas teu coração miserável
Lateja enquanto as luzes
Acendem, apagam, acendem, apagam
No centro da cidade.

A cidade é triste,
Com suas ruas iluminadas
Repletas de gente triste.

Se ao menos fosse sábado!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Término

Pronto...

Acabou-se
A poesia.

Acabou-se.

Pega tuas coisas
E vai-te embora.
Por que ficarias?

Toma teu casaco,
Teus ingressos...
Vai-te embora.


Acabou-se
A poesia.

Acabou-se.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Da Aurora

Fazer as pazes, a barba, e sair.
Quem quer ouvir dos meus tempos de escola?
O sol nasce mais cedo na Rua da Aurora
Que é pra dar tempo de ser feliz.

Eu gosto da noite. Estou sempre indo embora,
Mas peço a Antônio que não se mate;
Agarre um sonho desses de fim de tarde.
O sol não se põe na Rua da Aurora.

De quantos em quantos dias o sol nasce?
Eu também não tenho ninguém.

De quantos em quantos meses
O sol nasce aqui?

De quantos em quantos anos o sol nasce
Aqui? Eu não tenho ninguém.


O sol tinha que se por pra poder nascer.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Um Rio

Cansado de saber,
Serrou os pulsos como quem
Derruba uma árvore.
Viver é cansativo.

A alma é passível
De tédio quando à margem
Do rio, sem coragem.
O tédio é incisivo.

Dois olhos faroleiros
Vigiam a cabotagem,
A insânia, a parolice
De cada homem marinho


Cada forasteiro
Sem voz, sem foz. Cem mares
Encapelados jazem
No leito de um rio.

Careca de saber,
Cerrou os punhos como quem
Se apronta pra combate
E mergulhou sem siso.

Bobagem. Sou um rio
Barroco e sem barragem
A seguir viagem.
Deságuo no pacífico.